Rufus Wainright- “Release The Stars”

Resenha publicada no site do Alto Falante em 17/05/2007

Rufus Wainwright é tipo aquele amigo gay que todo mundo deveria ter na vida-bem, pelo menos por um período dela. Ele inverte a lógica proclamada por artistas como Thom Yorke, de que é uma vida pessoal tranqüila possibilita ser caótico no lado profissional. Com a diva canadense, a questão é diferente: seu sapatinho de princesa vive se sujando nas maiores pocilgas disponíveis na praça, com pit stops generosos em drogarias legais, drogarias ilegais, baladas tipo Clube das Mulheres, namorados que não dispensam uma dieta à base de muita heroína e infidelidades… Se o seriado fosse um pouco mais trash, Rufus seria a quinta neurose ambulante e adorável de “Sex And The City” com perfeição.

Mas como Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte não se cansam de ensinar, classe, glamour, elegância são tão essenciais para a ressaca quanto água mineral e algumas aspirinas. Rufus é um desses, que envelopa suas dores nos papéis de carta mais delicados. Existem alguns (poucos) artistas contemporâneos que se submetem a um padrão de qualidade com um rigor de espantar qualquer hype: Air, Pato Fu, Bjork, Marisa Monte, Wilco… Rufus Wainwright está entre esses. Então, o mínimo que se pode esperar de seu novo trabalho, “Release The Stars”, são algumas grandes canções. E elas existem, e se mantêm muito acima da média da concorrência. A abertura “Do I Disapponted You?” repete o truque de Rufus abrir seus discos com canções épicas, quase apoteóticas. Soa manjado, mas bem vindo: ninguém hoje em dia consegue soar exagerado, quase kitsch como ele. Na seqüência entra “Going To A Town”, igualmente sofisticada, mas mansa e triste de doer. Fácil, fácil será adotada como uma das favoritas dos fãs. Volta a um tema conhecido no universo dele, a saudade de tempos mais calmos, e desabafos como “eu tenho uma vida para viver, America” soam quase bucólicos.

O problema começa a partir de “Tiergraden”, a terceira faixa. Segue um bloco de canções chiquerésimas, mas pouco memoráveis, uniformemente belas e esquecíveis. Iguais a muita coisa que ele mesmo já fez, mas sem as inspirações francamente pop ( se lembra de “Califórnia” de Poses?) ou ousadamente eruditas ( “Little Sister”, “The Art Teacher” de Want II) dos trabalhos anteriores. Mesmo a arrepiante “Not Ready To Love” parece repetir fossas anteriores como “Under A Peach Tree”. No meio de tudo isso, a animada “Between My Legs” se destaca com facilidade, com uma pegada que raspa o adjetivo “viril”.

Por tudo isso, “Release The Stars” nos lembra outra coisa: os discos de Rufus são loooongos… A diferença entre esse e os anteriores é simples: enquanto que obras-primas como “Want” nos faziam perguntar de onde vinha tamanha inspiração, neste fica a duvida se Neil Tennant (dos Pet Shop Boys, produtor do álbum) não se empolgou demais com o champagne e os call-boys e se esqueceu de dar uma boa editada. Inspirado pelos versos finais de “Slideshow”, eu me pergunto a respeito de Rufus: “Do I Love You?”. Assim como a resposta dele (“Yes, I Do”), descubro que ele ainda é minha diva favorita. Mas, Rufus, pergunte a Sarah Jessica Parker sobre o disco e provavelmente vai escutar o seguinte: você pode até repetir alguns acessórios, mas nunca o mesmo vestido.

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