Quebrando o gelo com Van Morrison

Resenha publicada no site do Alto Falante em 26/02/2007

Van Morrison é um desses outsiders da música popular: concede pouquíssimas entrevistas, faz pouquíssimas concessões em relação a sua músicas e mesmo carregando fãs ardorosos e um álbum lendário nas costas, não é exatamente um artista muito popular. Tem lá sua mão cheia de hits (“Crazy Love”, “Have I Told You Lately?”, a divina “Someone Like You”), assinou um dos clássicos imortais do rock, “Glória”, eternizadas na versões de The Doors e Patti Smith e é considerado um gêniozinho desde os tempos de Them (uma das bandas mais subestimadas da chamada Invasão Britânica nos anos 60), mas isso não garantiu a ele cadeira VIP no panteão de ouro do pop.

As pessoas que não admiram a obra de Van Morrison costumam dizer que ele só fez um grande disco - “Astral Weeks”, de 68 - e que depois só repetiu o mesmo disco algumas vezes. Acreditando nessa possibilidade meio irreal, só resta aos verdadeiros fãs de Morrison afirmar: “Mas que discos!”. O período de ouro de Van Morrison realmente começa com “Astral Weeks”, freqüentemente (e com justiça) apontado como um dos melhores álbuns já produzidos em todos os tempos e alcança outros trabalhos brilhantes como “Moondance”, “Tupelo Honey” e o explosivo “It´s Too Late To Stop Me Now”. Este último reúne alguns de seus maiores sucessos em uma performance ao vivo antológica, prova maior de que é no palco que o irlandês consegue capturar a essência dos grandes cantores de soul, o mojo dos bluesmen tradicionais e a delicadeza dos trovadores folk. Não é a toa, são justamente estes três vetores musicais que orientam a obra dele até hoje.

Provavelmente, foi pensando nisso que Claude Nobs, o curador do festival de Montreux, convidou pela primeira vez Van Morrison para participar da edição de 74. Apenas um pequeno problema: na época, o músico estava completamente imerso em um estilo de vida pouco afeito a badalações, vivendo em uma fazenda, recém-separado da esposa Jane Planet, criando para si mesmo um mundo pastoril e bucólico. Em outras palavras: hippie total. Quando foi convidado, o cantor aceitou participar do festival, mas com um detalhe: precisaria de uma banda montada especialmente para o show! O resultado, na prática, foi um show sem os maiores sucessos do irlandês, mas com alguns grandes momentos, entre eles, uma jam session capitaneada pelo tecladista inglês Pete Wingfield. Registro de um tempo (os anos 70) em que a música saía das mãos de quem realmente tinha domínio e carinho absoluto por seus instrumentos e a palavra improvisação nem sempre rimava com masturbação.

Já em 1980 a história mudou: o cantor ofereceu ao público de Montreux o pacote completo. Uma grande (numericamente, aliás) banda incluindo sopros e metais e vários clássicos no bolso, como “Moondance”, “Wild Night” e “And It Stoned Me” que conseguiriam derreter até o mais gelado dos suíços. E derreteram, vide a histérica reação da platéia diante da histórica performance de “Ballerina”. A única pessoa que manteve a cara feia o tempo todo foi o próprio Van Morrison, um notório recluso mau humorado - talvez por isso, um dos maiores ídolos de ninguém menos que Bob Dylan. Vai ver ele guarda as emoções exclusivamente para suas músicas. Mas, repito, que músicas!

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