Não querem acabar contigo, Roberto!

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 05/03/2007

Em ótima entrevista recente ao programa de rádio da Trip, o escritor Paulo César Araújo, biógrafo de Roberto Carlos, respondeu a seguinte pergunta:Quais foram os maiores erros da carreira do cantor? Depois de 15 anos dedicados a primorosa pesquisa que compõe “Roberto Carlos Em Detalhes”, armado de franqueza ímpar, Paulo César respondeu sem rodeios: “Foram poucos, e um deles é a proibição do meu livro”. E seguiu elencando nomes que saíram publicamente em sua defesa na imprensa. Some-se o meu então.

Dediquei boa parte do mês de janeiro agarrado ao livro -quinhentas e tantas páginas de apuração rara hoje em dia - e recomendo a leitura para os que formam o público-alvo do artista Roberto Carlos, ou seja, todo mundo. Desde que o livro foi lançado, em dezembro do ano passado, o cantor se dedicou a uma incansável cruzada, na missão de tirar a obra de circulação. Até a última semana pelo menos, Roberto pôde descansar feliz: a Justiça determinou que sejam interrompidas publicação, distribuição e comercialização do livro em todo território nacional.

O que não foi possível de se entender até agora, é porque dessa perseguição. Não é uma obra negativa em relação a Roberto Carlos, pelo contrário: trata-se de uma declaração de amor, uma defesa desavergonhada a um dos homens mais acostumados a esse tipo de afago em todos em tempos. Afinal,qualquer pessoa que saiba da existência de um Brasil dos postos de beira de estrada, dos bordéis baratos, das rádios populares, dos especiais de fim de ano na tevê, dos cruzeiros transatlânticos e principalmente, dos amores e desamores independentes de gênero, cor ou classe social, têm a dimensão exata do que representa Roberto Carlos.

É também para quem não sabe disso, que serve “Roberto Carlos Em Detalhes”. Um dos melhores serviços prestados pela biografia (como gênero literário) é apresentar a toda uma nova safra de leitores um artista que, por motivos múltiplos, não foi captado pelo radar de interesse dele. No caso específico do Rei, o livro, assim como o CD “Acústico MTV” de 2003, joga luz em um cantor que há muito deixou de cantar para a juventude, afirmando para uma nova geração o real tamanho do cantor. Passando longe do sensacionalismo ou das teorias pessoais rasas, a biografia pode servir como uma genuína extensão do legado do artista, uma bússola preciosa para encarar as maratonas pessoais de alguns onde a vida se confunde com a arte, e é justamente a partir desse “detalhe”(vida=arte) que a grandeza é adquirida por muitos artistas.

Em um paralelo possível histórico possível, temos Bob Dylan, que depois de anos batalhando contra o esmiuçamento de sua nublada vida pessoal em biografias não autorizadas resolveu contar a”história real” em “Crônicas”, onde se posiciona o tempo todo no nível dos mortais.A censura de Roberto Carlos vai de acordo com a idéia - que parece tão obsessiva quanto o transtorno que ele vêm lutando – de querer ser um mito. Roberto, corta essa. Afinal, platonicamente, a construção dos mitos nas sombras podem ser maiores que a verdade, o que está exposto na luz. Mas nem sempre precisam ir contra ela. 

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